O Palco Principal do MuyunaFest é considerado um projeto de arquitetura social por criar um espaço cultural flutuante que responde às realidades climáticas e sociais de Belén, levando cinema e cultura a comunidades ribeirinhas até então excluídas do circuito artístico. A iniciativa parte da arquitetura vernacular amazônica e do conhecimento construtivo dos moradores do bairro, transformando um cotidiano marcado pelas inundações em uma experiência coletiva e celebrativa. Mais do que um palco, o projeto atua como ferramenta de pertencimento, criatividade comunitária e reconciliação com o território, contribuindo para que um bairro historicamente estigmatizado possa reinventar sua relação com a água e o espaço público.
A demanda nasce do bairro anfíbio de Belén, em Iquitos, na Amazônia peruana, onde o palco foi concebido como o coração do MuyunaFest — um festival internacional de cinema flutuante dedicado às florestas tropicais e seus povos indígenas. Belén, por muito tempo estigmatizada por pobreza e condições precárias, vive flutuações extremas no nível das águas que transformam ruas em rios por meses a cada ano. Casas flutuam sobre toras ou se erguem em palafitas, formando uma paisagem de adaptação, criatividade e resiliência que inspirou diretamente o projeto.
O processo emergiu da relação de longa data entre o Espacio Común e a comunidade. Em vez de impor um desenho pronto, os arquitetos atuaram como acompanhantes, traduzindo em forma arquitetônica ideias desenvolvidas em diálogo. Oficinas de maquetes com crianças geraram conceitos espaciais centrais, e os moradores participaram de todas as etapas — como construtores, cozinheiras e barqueiros. Padrões decorativos co-criados com crianças do bairro, inspirados na cultura visual amazônica, transformam a estrutura em uma obra coletiva que fala de pertencimento e imaginação compartilhada.
O palco se torna ponto de encontro durante o festival, com plateias chegando de canoa, seus barcos balançando suavemente enquanto a luz da tela reflete na água. Os cobertores laterais funcionam como “roupa” do palco, e as imperfeições visíveis — nós, cortes irregulares, assimetrias sutis — são abraçadas como expressão de honestidade e autoria coletiva. A paleta de materiais (madeira regional, sobras de serraria, canas de fazendas próximas, gravetos normalmente usados como lenha) reflete a economia circular já presente na vida amazônica.
O que começou como instalação temporária evoluiu para um projeto cultural de múltiplas camadas. Durante o festival, o palco abriga sessões de cinema, performances e oficinas; depois, segue funcionando como playground, doca flutuante e ponto de encontro informal. O projeto demonstra que estruturas efêmeras podem deixar legado social duradouro — não pela permanência, mas pela participação. A próxima edição, em 2026, será construída por carpinteiros locais e jovens em um processo de formação, e depois transformada em espaço público permanente para Belén.