Centro Cultural e de Mídia Jupaú é considerado um projeto de arquitetura social por colocar a arquitetura a serviço da autodefesa de um povo indígena em uma das regiões mais ameaçadas da Amazônia. A iniciativa parte da demanda do Povo Jupaú por um espaço dedicado a equipamentos de mídia capazes de documentar e monitorar seu próprio território. Mais do que um centro cultural, o projeto atua como infraestrutura para vigilância territorial, registro de memória e fortalecimento cultural, contribuindo para a preservação ambiental da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau e para a continuidade dos saberes do povo que a habita.
O Povo Jupaú, autodenominação dos Uru-Eu-Wau-Wau, habita uma terra indígena de cerca de dois milhões de hectares em Rondônia, na fronteira entre Cerrado e Floresta Amazônica. É um dos territórios indígenas mais pressionados do país, alvo recorrente de garimpo ilegal, grilagem, desmatamento e ataques a defensores indígenas. O monitoramento autônomo do território passou a ser estratégia central para a sobrevivência do povo e da floresta, e demandava infraestrutura adequada para receber e operar equipamentos de registro e comunicação.
O Centro Cultural e de Mídia Jupaú foi construído para abrigar drones, computadores e ilhas de edição usados pelos próprios indígenas para documentar e preservar seu território e seus costumes. O edifício de 280 m² combina funções de centro cultural e base operacional de mídia, articulando memória cultural e defesa territorial em um mesmo equipamento. Ao integrar tecnologia contemporânea a um espaço pensado a partir da lógica espacial do povo, o projeto traduz em arquitetura uma estratégia política indígena: ocupar o registro e a narrativa do próprio território.
O desenho do edifício foi inspirado em uma oca tradicional Jupaú, mantendo na arquitetura referência direta ao modo Uru-Eu-Wau-Wau de construir e habitar. A estrutura foi erguida em madeira de lei apreendida pelo IBAMA em operações de fiscalização contra extração ilegal na região e doada à obra pelo Ministério Público de Rondônia — uma escolha que devolve ao território, na forma de equipamento coletivo, parte do material retirado dele de forma criminosa. Painéis da fachada foram executados por Ronaldo e Tari Uru-Eu-Wau-Wau, integrando autoria indígena ao processo construtivo, complementados por construção em terra desenvolvida com a Goya Arquitetura.
A realização envolveu a Associação Jupaú, a Associação Kanindé e a Documist, articulando organizações indígenas, ambientalistas e produtoras de conteúdo em torno de um equipamento que pertence ao povo Jupaú. O projeto é desdobramento da pesquisa de Anna Dietzsch sobre urbanização da Amazônia com desenvolvimento ecológico integrado e valorização dos saberes dos povos originários, e da atuação da Plataforma Cidade Floresta. Ao traduzir defesa territorial, autorrepresentação midiática e referência construtiva tradicional em uma única edificação feita com madeira recuperada do próprio crime que ameaça a floresta, o Centro Cultural e de Mídia Jupaú firma um modelo de arquitetura social a serviço da autonomia indígena e da continuidade da floresta em pé.