O Território dos Saberes é considerado um projeto de arquitetura social por reimaginar a educação pública na Amazônia peruana, conectando saberes ancestrais, pedagogia intercultural e consciência ecológica em um espaço cocriado com a comunidade indígena Nomatsigenga. A iniciativa parte de um processo participativo de design e construção, com materiais locais e estratégias bioclimáticas adaptadas ao clima da floresta tropical. Mais do que um edifício, o projeto atua como ferramenta de cura, identidade e resiliência em territórios historicamente marcados pela exclusão e pela pressão ecológica, contribuindo para um modelo de educação enraizado no lugar e em diálogo entre gerações.
A comunidade Nomatsigenga de Mencoriari, no centro da Amazônia peruana, viveu por gerações sob os efeitos de conflitos armados, abandono estatal e atividades extrativas. Foi nesse contexto que estudantes, professores, pais e anciãos da aldeia se reuniram em oficinas para imaginar coletivamente um espaço educativo que respondesse à sua realidade — um lugar onde o conhecimento da floresta tivesse o mesmo peso que o currículo nacional.
A construção foi conduzida em diálogo com a comunidade, valorizando práticas e materiais locais. Anciãos compartilharam saberes sobre plantas medicinais, jovens participaram das decisões de projeto, e o processo se transformou em si mesmo em uma experiência pedagógica. O resultado é um espaço que cresce como um organismo vivo: começa como semente, vira árvore e se multiplica em forma de floresta — uma metáfora que organiza tanto a arquitetura quanto o modelo de ensino.
Hoje, o Território dos Saberes funciona como escola e centro cívico ao mesmo tempo. Acolhe 88 estudantes do ensino médio, sete professores e mais de 480 moradores, abrigando uma sala de aula aberta, um laboratório de plantas medicinais e espaços de encontro cotidiano. O projeto também inclui um Museu Itinerante que leva esses aprendizados para outras comunidades amazônicas, ampliando o intercâmbio entre gerações.
Mais do que um equipamento educativo, o espaço fortalece o orgulho pela herança Nomatsigenga e devolve à comunidade o protagonismo sobre o que se ensina e como se ensina. Ao reconectar pedagogia, cultura e território, o projeto se torna um modelo replicável para outras escolas amazônicas e renova o sentido coletivo de pertencimento.