Arquitetura na Periferia é considerado um projeto de arquitetura social por transformar a produção do espaço doméstico em ferramenta de autonomia para mulheres em territórios de vulnerabilidade. A iniciativa parte de um método participativo que capacita moradoras a projetar, planejar e executar melhorias em suas próprias casas e em espaços coletivos da comunidade, reconhecido pelo governo brasileiro como tecnologia social em 2019. Mais do que um programa de assistência técnica, o projeto atua como rede feminista de formação e organização comunitária, contribuindo para a democratização da arquitetura e para o protagonismo de mulheres em decisões sobre o espaço onde vivem.
A iniciativa coloca a formação de mulheres no centro de sua atuação, partindo do entendimento de que a autonomia sobre o espaço doméstico é caminho de emancipação social e econômica. Fundada em 2013 durante o mestrado da arquiteta Carina Guedes na Escola de Arquitetura da UFMG, a Arquitetura na Periferia nasceu para responder à ausência de serviços de arquitetura e urbanismo nas regiões onde vive parte significativa da população brasileira. Ao longo dos anos, evoluiu para um coletivo multidisciplinar feminista, e em 2018 fundou o Instituto IAMÍ, voltado à promoção da dignidade humana por meio de iniciativas de relevância social, ambiental e cultural.
O método de trabalho organiza um processo participativo em que as moradoras aprendem práticas de projeto, como medição de ambientes e elaboração de plantas arquitetônicas, e também competências de planejamento financeiro, cálculo de materiais e orçamento. Oficinas práticas de canteiro completam a formação, permitindo que as participantes acompanhem ou executem as obras em suas próprias casas. Esse método foi reconhecido como tecnologia social pelo governo brasileiro em 2019, condição que confirma seu caráter replicável e abre caminho para sua adoção em diferentes territórios e contextos.
A atuação se organiza em três eixos articulados. O AnP AT trabalha com projeto participativo voltado à habitação social, o AnP BIO realiza intervenções em espaços comunitários com técnicas de bioconstrução, e o AnP CO viabiliza melhorias em casas de famílias de baixa renda, conduzidas pelas próprias mulheres formadas pelo programa. Uma das intervenções emblemáticas ocorreu na Comunidade Paulo Freire, na Rua Maria Perpétua, onde um edifício quase abandonado foi reabilitado a partir de um ciclo formativo que combinou aulas teóricas sobre culturas latino-americanas e africanas com visitas de campo e oficinas. A implantação envolveu revestimento em bambu, reboco e pintura com terra e a construção de um banco em taipa, devolvendo o espaço ao uso ativo da comunidade.
Entre 2020 e 2023, a Arquitetura na Periferia envolveu 520 mulheres em 12 comunidades, com impacto estimado em cerca de 4.500 pessoas, 110 melhorias habitacionais executadas e dois espaços coletivos reformados. Em 2023, o instituto firmou parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte para um programa pioneiro de assistência técnica voltado à habitação precária, tornando-se a primeira organização da sociedade civil a apoiar o desenho e a implementação dessa política pública na cidade. Ao articular formação técnica, organização feminista e incidência sobre política habitacional, a Arquitetura na Periferia afirma que produzir espaço é também produzir autonomia, e estabelece um modelo replicável para uma arquitetura feita pelas mulheres que vivem onde ela acontece.