Escolas para Áreas Sujeitas a Enchentes é considerado um projeto de arquitetura social por reconfigurar a infraestrutura pública de educação como ferramenta de adaptação climática e abrigo comunitário em territórios vulneráveis a enchentes recorrentes. A iniciativa parte da elevação em palafitas dos espaços pedagógicos, do uso do térreo como pátio inundável e da incorporação de uma cobertura superior preparada para funcionar como abrigo emergencial. Mais do que um edifício escolar, o projeto atua como protótipo replicável de infraestrutura pública resiliente, contribuindo para garantir o direito à educação e à proteção em comunidades ribeirinhas sob impacto direto das mudanças climáticas.
O Rio Grande do Sul vive um cenário de enchentes recorrentes que se agravou drasticamente com a catástrofe climática de 2024, quando dezenas de escolas públicas foram destruídas ou interditadas em áreas ribeirinhas. Diante desse contexto, o Instituto Unibanco e a Secretaria de Estado de Educação do Rio Grande do Sul convidaram os escritórios Andrade Morettin e sauermartins para desenvolver um protótipo de escola pública adaptado a regiões de alta vulnerabilidade hídrica. O terreno escolhido em Porto Alegre é justamente o local onde uma escola anterior havia sido destruída pela enchente, decisão que preserva o vínculo com a comunidade e recusa a relocação para áreas mais distantes.
A diretriz fundamental é aceitar a enchente como condição inevitável do território e operar com a água, em vez de tentar contê-la com diques ou sistemas mecânicos onerosos. O edifício é elevado sobre pilotis, tipologia que retoma a palafita tradicional das comunidades ribeirinhas brasileiras. Salas de aula, laboratórios, bibliotecas e infraestrutura técnica essencial são posicionados acima da cota máxima de inundação. O térreo é assumido como espaço inundável e abriga pátio, quadra esportiva e área de assembleia, com materiais tolerantes à água e desenho que permite recuperação rápida após o recuo das águas. A verticalização reduz a ocupação do solo e contribui para a lógica de cidade-esponja.
A cobertura superior é projetada como ginásio que opera simultaneamente como abrigo emergencial e centro de apoio à defesa civil, equipado com cozinha, refeitório, banheiros, reservatório de água potável e sistema fotovoltaico. As estratégias passivas estruturam o desempenho ambiental: beirais estendidos garantem sombra e ventilação cruzada, salas de aula são orientadas a norte e as aberturas recebem brises de bambu em referência ao artesanato local. O paisagismo integra microfloresta, viveiro de mudas, horta comunitária e um wetland para tratamento de águas servidas, expandindo o programa educacional para a dimensão ambiental.
A escala do projeto vai além do edifício individual: trata-se de um sistema de construção e reforma da rede estadual, sistematizado em um guia ilustrado para aplicação em outras unidades. O sistema construtivo combina superestrutura em concreto pré-moldado modular com cobertura em madeira pré-fabricada, otimizando reprodutibilidade e adequação a solos de baixa capacidade de carga. Uma estratégia central é um módulo “plugin” de infraestrutura e acessibilidade que pode ser acoplado a escolas existentes, ampliando o alcance da intervenção sem demandar reconstrução integral. Reconhecido com o Grand Prize do Holcim Foundation Awards 2025 para a América Latina, o projeto consolida a escola pública como infraestrutura territorial multifuncional e oferece um modelo escalável de adaptação climática para o Sul global.