ARQ.SOCIAL

Casa no Pomar do Cafezal

por Coletivo LEVANTE

Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil

Casa no Pomar do Cafezal é considerado um projeto de arquitetura social por levar arquitetura de qualidade para a periferia sem romper com o repertório construtivo do território onde se insere. A iniciativa parte de um projeto desenhado para um morador específico do Aglomerado da Serra, com decisões de implantação, ventilação e iluminação que garantem qualidade ambiental dentro de um orçamento e de uma materialidade equivalentes aos das demais casas do entorno. Mais do que uma residência unifamiliar, o projeto atua como demonstração de que é possível produzir arquitetura cuidadosa em contexto periférico, contribuindo para deslocar a ideia de que projeto qualificado pertence apenas a áreas com maior poder aquisitivo.

detalhes do projeto

ano

2020

área

66 m²

website do projeto

localização

Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil

créditos da equipe

arquitetos

- Coletivo LEVANTE -
Fernando Maculan
Joana Magalhães
Cássio Lopes
Ricardo Lobato

contribuidores

Cerâmica Braúnas
JL Serralheria e Metalúrgica
Ocri Oficina
Trimble Navigation

comissionado por

Kdu dos Anjos

O Coletivo LEVANTE é formado por arquitetos, estudantes e engenheiros que voluntariamente desenvolvem projetos em favelas e periferias de Belo Horizonte, liderados por Fernando Maculan e Joana Magalhães. O grupo articula fornecedores, apoiadores e moradores para viabilizar obras de baixo custo com qualidade técnica em territórios historicamente desassistidos pela produção formal de arquitetura. A Casa no Pomar do Cafezal foi a segunda obra realizada pelo coletivo e se conecta diretamente à atuação anterior do grupo na mesma comunidade, o Centro Cultural Lá da Favelinha.

O cliente é Kdu dos Anjos, gestor do centro cultural Lá da Favelinha e morador do Aglomerado da Serra. A relação entre Kdu e o coletivo antecede a casa e foi construída ao longo da obra do centro cultural, o que permitiu um processo de projeto baseado em escuta e em troca direta sobre o uso cotidiano da moradia. O próprio morador refere-se à casa como “meu barraco”, um deslocamento de linguagem que reposiciona o lugar simbólico do projeto: não é uma obra de exceção implantada na favela, e sim uma casa do território, reconhecida pelo morador como parte do bairro.

As soluções construtivas partem do repertório vernacular do Aglomerado da Serra e o reorganizam para ampliar a qualidade ambiental do espaço. O tijolo cerâmico de oito furos, material padrão das construções da região, é assentado na horizontal, exibindo a face frisada e gerando paredes com maior inércia térmica, mais lentas para aquecer e mais estáveis em períodos frios. A implantação em terreno anguloso de cerca de 70 m² acomoda dois módulos estruturais de 3×3 m em dois pavimentos, com aberturas que garantem ventilação cruzada e iluminação natural abundante, além de aproveitar a vista do morro. Tubulações de água e instalações elétricas aparentes mantêm o vocabulário construtivo do entorno e facilitam manutenção.

A casa recebeu menção honrosa na 21ª Premiação de Arquitetura do IAB-MG e foi eleita Casa do Ano no ArchDaily Building of the Year 2023, prêmio internacional que reuniu cerca de 1,6 mil projetos residenciais e foi decidido por votação aberta de leitores. A repercussão internacional de um projeto de 66 m² em uma favela brasileira, disputando com obras de alto padrão, evidencia o valor político da escolha do coletivo por trabalhar exclusivamente em territórios periféricos. Ao tratar arquitetura na favela com a mesma exigência técnica e projetual aplicada em qualquer outro contexto, a Casa no Pomar do Cafezal afirma que qualidade espacial e protagonismo do morador podem caminhar juntos, e propõe um modelo replicável para a produção de moradia digna nas periferias brasileiras.

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